Idoso de Santa Eudóxia conheceu Roque e relembrou histórias da fazenda. Foto: Fabio Rodrigues/G1
Idoso de Santa Eudóxia conheceu Roque e relembrou histórias da fazenda. Foto: Fabio Rodrigues/G1

A história de Roque José Florêncio atravessou gerações como um daqueles relatos que muitos duvidam, mas que a comunidade de Santa Eudóxia, em São Carlos (SP), trata como parte viva de sua identidade. Nascido em Sorocaba em meados do século XIX e vendido como escravizado para uma fazenda de café na região, Roque teria se tornado um “escravo reprodutor”, prática utilizada para ampliar a mão de obra cativa. 

Segundo familiares e pesquisadores, ele teria mais de 200 filhos e morreu aos 130 anos, conforme registrado em sua certidão de óbito. O registro de óbito datado de 17 de fevereiro de 1958 indica que Roque morreu em razão de insuficiência cardíaca, miocardite, esclerose e senilidade. A família acredita que o número de filhos foi anotado em um antigo livro da Fazenda Grande, mas esse documento nunca foi encontrado. 

Lembranças

A família diz que Roque foi comprado na Vila Sorocaba e vendido para Visconde da Cunha Bueno, dono de um latifúndio voltado para a produção de café. Na propriedade, ganhou o nome e o apelido de “Pata Seca” pelas mãos compridas e finas.

No distrito, a memória do patriarca se mantém especialmente pelas lembranças da neta Maria Madalena Florêncio Florentino, que guarda a foto do avô como um tesouro. Sem provas formais dos nascimentos, os descendentes recorrem às redes sociais para tentar localizar parentes espalhados pelo interior paulista.

“É uma história verdadeira, não é uma lenda”, afirmou ela, reforçando que a família ainda tenta reunir documentos e localizar descendentes espalhados. O neto Celso Tassim, de 54 anos, também lamenta as lacunas deixadas pelo tempo: “No Broa tem, em São Paulo, Araraquara, mas, quando eu pergunto, dizem que não sabem. É uma incógnita”.

O que dizem os pesquisadores

Pesquisadores confirmam que a trajetória de Roque se insere em um contexto em que a escravidão se expandia com o avanço do café. O historiador Marco Antonio Leite Brandão afirma que o mais antigo registro da escravidão em São Carlos é de 1817, e que a cidade integrava uma rota de tráfico interno de pessoas escravizadas. 

“O mais importante, talvez, das pesquisas que realizei foi a identificação de uma rota de comércio de escravos entre a Província da Bahia, centralizada no município de Caetité, e São Carlos. Havia, de fato, um mercado de escravos, a Fazenda Babilônia, limite entre São Carlos e Descalvado”, afirmou. “Mas nada sobre reprodutores ou sobre Pata Seca”.

Estima-se que mais de 30% dos moradores do distrito possam ser descendentes de Roque, considera pesquisador

Para o psicólogo e pesquisador Marinaldo Fernando de Souza, que estudou a história do patriarca, a ausência de documentação é um reflexo do apagamento histórico da população negra. “A história oficial tende a forçar o esquecimento da memória negra”, disse.

“Em Santa Eudóxia existe uma história a ser vasculhada, a ser contada, e que fica relegada a um status de menor valor”. Ele estima que mais de 30% dos moradores do distrito possam ser descendentes de Roque. “Se fosse um branco, não seria lenda. Ele é real, foi escravizado. Essa história precisa ser resgatada e não precisa de documentos. Os documentos são forjados em prol da elite branca. A memória negra precisa vir à tona”.

Estatura e a possibilidades de filhos homens

Roque tinha 2,18 metros e por ter canelas finas, à época, acreditava-se que geraria filhos do sexo masculino, por isso foi escolhido para se deitar com as escravas e gerar mais mão de obra.

Além disso, Roque cuidava dos cavalos e levava correspondências entre a propriedade e a cidade. Foi nessa rotina que conheceu Palmira, que mais tarde se tornaria sua esposa. “Ele ia buscar as cartas em São Carlos e, quando passava, via uma moça magrinha, barrendo, barrendo”, contou Madalena.

9 filhos com Palmira

Com o casamento autorizado pelos proprietários, Roque recebeu 20 alqueires de terra para iniciar a própria família, com quem teve mais nove filhos. Mas, sem recursos para cercar toda a área, perdeu parte da propriedade. Para sustentar o lar, fazia canecas e assadeiras com lata, criava galinhas, cultivava roça e preparava rapaduras que vendia pelas fazendas da região. 

Madalena lembra das histórias sobre o avô e o cavalo pequeno que o acompanhava: “Ele tinha um cavalinho e, como era muito grande, arrastava os pés no chão. Falavam que ele ia acabar matando o animal e ele dizia que não, que era o ganha pão dele”.

Os amigos de Roque

Marcílio Corrêa Bueno, de 88 anos, amigo de Roque, também recorda as visitas que ele fazia para vender seus produtos. “Eu morava na fazenda Grande e, nesse tempo em que eu morei lá, ele ia vender ovo, frango, rapadura. Fazia uma rapadura! De coco, abóbora, mamão, leite, cidra…”. 

Segundo o aposentado, Roque era muito querido e costumava organizar festas em homenagem a São João no sítio onde morava, sempre recebendo os convidados com generosidade.

Memórias de Madalena

As memórias de Madalena incluem cenas do cotidiano com o avô: a camisa branca que ele sempre usava, o hábito de varrer o entorno da casa, o fubá mexido com banha que fazia parte do café da manhã e o cuidado com Palmira, que perdeu a visão após complicações no parto. No almoço, costumava comer arroz e feijão com torresmo ou frango.

Ele dormia em uma cama de tarimba com colchão de palha de milho. Madalena também recorda o acidente que agravou a saúde do avô: um prego da mesma cama perfurou seu pé e, apesar dos cuidados com remédios caseiros da época, seu estado piorou. Roque morreu meses depois, em fevereiro de 1958, internado na Santa Casa de São Carlos, pouco após desfilar no aniversário da cidade como o homem mais velho do município.

A foto

É justamente desse desfile a única foto de Roque, encontrada anos depois, guardada na carteira de um antigo amigo. Hoje, o retrato ocupa o espaço principal da sala de Madalena, junto das chaves da antiga casa e de um prego semelhante ao que feriu o avô. Ela mantém viva a tradição da rapadura, repetindo a receita que Roque fazia no sítio. 

Para a neta, o avô teve vida longa porque, diferentemente de muitos escravizados, vivia na Casa Grande e tinha acesso a alimentação mais variada. A busca por documentos e informações continua, e ela diz que deseja doar todo o acervo a um museu. “Fico muito feliz, muito orgulhosa de contar a história do meu avô”.

**Com base em informações do G1 São Carlos e Araraquara