Digão é acusado de agressão e temperamento explosivo; entenda a crise que marcou os Raimundos
Digão é acusado de agressão e temperamento explosivo; entenda a crise que marcou os Raimundos

Em entrevista concedida ao Portal LeoDias, Adriana Toscano, viúva de Canisso — baixista, compositor e um dos fundadores dos Raimundos, banda surgida em Brasília nos anos 1990 e conhecida por misturar rock, punk e hardcore com letras irreverentes e de forte apelo popular — reacende episódios antigos e ajuda a traçar o perfil de Digão, outro integrante fundador do grupo, marcado por histórico de conflitos, violência e intolerância. Canisso foi um dos pilares do Raimundos desde a formação, ajudando a consolidar o som direto, agressivo e debochado que levou a banda ao estrelato nacional, até sua morte, em 2023, aos 57 anos, vítima de um infarto.

Ao conversar com a jornalista Patrícia Calderón, Adriana abriu o coração sobre acontecimentos que desgastaram profundamente a relação entre os integrantes, especialmente após a saída de Rodolfo Abrantes, vocalista e também fundador da banda. Segundo ela, o próprio Rodolfo não suportava mais a convivência com Digão, a ponto de comunicar que deixaria o grupo por não aguentar a relação cotidiana com o vocalista. Um dos episódios mais graves teria ocorrido antes de um show no interior de São Paulo, quando Digão entrou no camarim onde estavam Canisso e Adriana e, sem qualquer discussão prévia, desferiu um soco no rosto do baixista, dando início a uma briga generalizada. Ao tentar separar e defender o marido, Adriana afirma ter sido também agredida, levando um soco que lhe quebrou o nariz.

O relato, segundo ela, foi especialmente doloroso por envolver pessoas ligadas por laços de amizade e convivência intensa, num período em que os Raimundos ainda compartilhavam não apenas palcos e turnês, mas uma vida quase familiar. Esses episódios internos, mantidos por anos no campo dos bastidores, passaram a ganhar contornos públicos à medida que o comportamento de Digão se repetiu em outros contextos, agora diante do público.

Polêmicas e Confrontos Recentes

Em um show recente, o vocalista voltou a protagonizar um confronto ao interromper a apresentação para discutir com pessoas na plateia que gritavam “sem anistia”, após ele próprio fazer comentários políticos no palco. Visivelmente exaltado, Digão desceu do palco, discutiu diretamente com um espectador e afirmou que devolveria o dinheiro do ingresso para que o grupo deixasse o local. A situação terminou com a intervenção de seguranças e a retirada de um homem da plateia. Posteriormente, o cantor usou as redes sociais para afirmar que a confusão não teria relação com política, mas com um suposto desrespeito a outro frequentador do evento — versão contestada por relatos de quem estava no show.

A controvérsia ganhou ainda mais repercussão por Digão ser um apoiador declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro, posição que ele nunca escondeu e que costuma levar aos palcos e às redes sociais. A postura agressiva diante do dissenso, somada ao histórico de agressões relatado por Adriana, desenha um perfil marcado pela escalada de conflitos e pela dificuldade em lidar com divergências, seja no ambiente íntimo de uma banda que ajudou a fundar, seja no contato direto com o público que acompanha os Raimundos há mais de três décadas.

O Declínio e o Futuro dos Raimundos

Hoje, os Raimundos seguem em atividade sob a liderança de Digão, mas estão longe do protagonismo que a banda teve nos anos 1990 e início dos anos 2000, quando figurava entre os principais nomes do rock nacional, emplacava discos de ouro, tocava em grandes festivais e lotava casas pelo país. O grupo mantém uma agenda regular de shows, sobretudo em eventos regionais, casas médias e festivais nostálgicos, sustentado quase exclusivamente pelo repertório clássico que marcou sua fase mais popular. O público que comparece é fiel, mas claramente mais restrito e envelhecido, formado em grande parte por fãs de longa data, o que indica uma base consolidada, porém pouco renovada.

Canisso, ex-baixista da banda, já falecido

 Em termos comerciais e culturais, os Raimundos hoje ocupam um espaço de sobrevivência digna, mas sem a relevância de outrora. Não há impacto significativo nas paradas, lançamentos com grande repercussão ou diálogo consistente com novas gerações. A ausência de Canisso, figura agregadora e respeitada internamente, aprofundou o distanciamento de parte do público histórico, assim como a saída antiga de Rodolfo Abrantes já havia simbolizado, para muitos fãs, o fim de uma era criativa específica da banda.

A postura política de Digão, frequentemente levada para os palcos e redes sociais, também contribuiu para afastar setores do público, especialmente em um cenário artístico no qual manifestações autoritárias e confrontacionais tendem a gerar desgaste de imagem.  

  Sem uma reaproximação simbólica com sua própria história, sem abertura ao diálogo com o público e sem uma inflexão clara de postura, os Raimundos tendem a seguir existindo como atração de circuito específico, apoiados na força do nome e das músicas antigas, mas sem perspectiva de expansão artística ou reconciliação com a relevância que já tiveram. Como diz o velho ditado do rock, estrada não perdoa: ela aceita quem respeita o público — e cobra caro de quem confunde palco com ringue.