Morre a cantora Angela Ro Ro, ícone da MPB, aos 75 anos
Angela Ro Ro: a compositora que abriu caminhos e desafiou a música brasileiraFoto: Divulgação

Angela Ro Ro é dessas artistas que não cabem em rótulos nem em épocas. Se estivesse viva, completaria 76 anos nesta sexta, 5, carregando no currículo algo cada vez mais raro na música brasileira: verdade sem concessões. Dona de uma obra intensa e pessoal, deixou mais de uma centena de gravações espalhadas por 14 discos próprios, além de participações marcantes em projetos e coletâneas especiais que ajudam a medir o tamanho de sua influência. Rô Rô faleceu no dia 8 de setembro, aos 75 anos.

Sua trajetória começou a ganhar forma ainda nos anos 1970, período em que viveu na Inglaterra e amadureceu artisticamente em meio a um ambiente musical efervescente. Ao retornar ao Brasil, trouxe na bagagem uma mistura pouco comum: sofisticação melódica, letras confessionais e uma atitude que jamais pediu licença. Angela surgia como compositora, intérprete e cronista das próprias dores, amores, excessos e contradições — algo que, à época, não era exatamente bem-visto, especialmente vindo de uma mulher.

Repertório e Legado Musical

Ao longo da carreira, construiu um repertório que atravessa a MPB com personalidade única. Canções como Amor, Meu Grande Amor, Gota d’Água e Tola Foi Você revelam uma compositora que escrevia como quem conversa — direta, nua, sem maquiagem emocional. Seu piano sempre foi mais confidente do que instrumento, e sua voz, irregular e humana, transformava cada música em confissão pública.

Angela Ro Ro também abriu caminhos. Foi uma das primeiras artistas brasileiras a falar abertamente sobre sentimentos, afetos e identidade sem subterfúgios, pagando um preço alto por isso em uma indústria acostumada a enquadrar talentos. Ainda assim, resistiu. Nunca deixou de gravar, nunca deixou de se expor, nunca deixou de incomodar — qualidade essencial para quem faz arte de verdade.

Sua importância para a música brasileira está justamente aí: na coragem de ser inteira quando o mundo prefere artistas pela metade. Angela Ro Ro não buscou unanimidade, buscou verdade. E, como toda obra honesta, permanece atual, necessária e viva — daquelas que o tempo não desgasta, apenas confirma.