
Entre 1997 e 2013, a G Magazine ocupou um espaço único na imprensa brasileira: foi a principal revista dedicada ao nu masculino e ao público gay, combinando ensaios fotográficos explícitos com reportagens de comportamento, saúde, cultura e direitos LGBTQIA+.
Criada pela editora Ana Fadigas, a publicação surgiu ainda sob o nome Bananaloca e rapidamente se consolidou como fenômeno editorial, com tiragem média de 180 mil exemplares por mês, mais da metade da circulação da Playboy, algo raro para um título de nicho.
A proposta ia além da provocação visual. Ao colocar homens nus na capa — muitos deles famosos na TV, na música e no futebol — a revista afrontava um imaginário em que a nudez era quase exclusivamente feminina.
A G Magazine ajudou a ampliar a representação do desejo masculino e a discutir temas como homofobia, masculinidade e direitos civis em plena virada dos anos 1990 para os 2000, período em que o debate sobre diversidade ainda engatinhava na mídia tradicional.

Mateus Carrieri foi o primeiro famoso
Um dos símbolos dessa virada foi o ator Mateus Carrieri. Ele se tornou o primeiro “famoso de grande circulação” a posar para a revista, em 1998, quando já era conhecido do público por novelas e programas de TV.
Na época, o ensaio causou frisson e críticas, mas abriu caminho para que outros rostos populares aceitassem o convite. Carrieri voltaria a posar para novas edições ao longo dos anos 2000 e, mais tarde, assumiria também uma breve carreira em filmes adultos.
Hoje, aos quase 60 anos, ele segue ativo como ator, personal trainer e figura presente em realities e programas de entretenimento, além de falar abertamente sobre o impacto e o preconceito que enfrentou por ter tirado a roupa para uma revista gay.

Boleiros deram muitas capas
O futebol foi outro terreno conquistado pela G Magazine. Em janeiro de 1999, a capa com Vampeta, então estrela do Corinthians e da seleção brasileira, virou assunto nacional, mostrando um jogador consagrado se expondo num veículo voltado ao público gay.
No mês seguinte, foi a vez do atacante Dinei, também ídolo corintiano, posar nu. Anos depois, ele contaria que aceitou o ensaio influenciado pelo colega de time e revelou o destino do cachê, lembrando ainda o estranhamento inicial no vestiário.
Hoje, Vampeta e Dinei se revezam entre programas esportivos, participações em realities e presença constante na crônica futebolística, e o episódio na revista é frequentemente retomado como marco de sua trajetória midiática.
Outra capa que entrou para a história foi a de Túlio Maravilha, em 2003. O artilheiro, conhecido pela irreverência e pelos mil gols, levou seu personagem midiático ao extremo ao posar nu para a revista.
O ex-goleiro Roger, então jogador do São Paulo, em 1999 também posou. O ensaio gerou tanta repercussão que o atleta, anos depois, relatou ter pedido para ser emprestado a outro time para evitar punições internas, ao mesmo tempo em que recebeu apoio de parte da torcida e de movimentos LGBT.

Galãs e artistas bombaram as publicações
Nas artes dramáticas, a G Magazine também colecionou nomes importantes. Victor Wagner, galã de novelas como “Xica da Silva”, estampou a capa em março de 1999, levando para o público gay a imagem de um dos rostos mais conhecidos da TV da época.
Nico Puig, outro galã da televisão dos anos 1990, surgiu em edição de agosto de 1999 e, anos mais tarde, diria que o ensaio não prejudicou sua carreira e o ajudou a enfrentar preconceitos, inclusive ao se assumir publicamente gay.
Hoje, Wagner e Nico Puig seguem mais discretos, ligados a trabalhos pontuais em teatro, projetos independentes e produção de conteúdo, mas são sempre lembrados quando se fala nas capas históricas da revista.

Roqueiros e popstars também faturaram
Na música, a revista ousou ao tirar a roupa de roqueiros e popstars. Em setembro de 1999, o cantor Roger Moreira, líder do Ultraje a Rigor, protagonizou uma capa que brincava com o humor irreverente da banda e reforçava a ideia de que o universo do rock também dialogava com o público
Já o cantor Latino posou em 2000, em um ensaio que ele próprio, anos depois, admitiu ter feito por necessidade financeira, revelando ter recebido um cachê alto e relatando dificuldades técnicas durante as fotos.
Hoje, ambos continuam na mídia — Roger à frente da banda e participando de programas de TV, e Latino circulando entre shows, redes sociais e reality shows, carregando a experiência na G Magazine como capítulo polêmico, mas incontornável, de suas biografias.

Declínio começa em 2008 e revista encerra em 2013
Ao longo de suas 176 edições, a G Magazine ajudou a naturalizar a imagem do homem nu em contexto voltado ao público LGBTQIA+, algo que, até então, raramente saía da clandestinidade ou do circuito pornográfico.
A trajetória impressa, porém, entrou em declínio após a venda da marca para uma empresa estrangeira em 2008, até que a publicação saiu de circulação em junho de 2013.
Mesmo fora das bancas, o legado da revista continuou rendendo debates, livros, posts nostálgicos e até projetos audiovisuais, como a série documental anunciada pela Globo para 2025 e posteriormente cancelada, o que não impediu outras iniciativas de seguir adiante com a memória da publicação.
G Magazine se prepara para um novo capítulo
Em 2024, a empresa Jetix, do empresário Rodrigo Ipólito, adquiriu a marca e anunciou o relançamento em formato digital gratuito, previsto para julho de 2025, o que não ocorreu.
A nova fase promete manter a combinação entre jornalismo e ensaios sensuais, com estética mais sofisticada, além de explorar licenciamento de produtos, plataforma de publicidade e até linha de cosméticos.
A aposta é dialogar com uma geração acostumada ao consumo online, sem abrir mão da ousadia que transformou a revista em ícone LGBTQIA+ nos anos 1990 e 2000.
Editado por Débora Costa