
O Laboratório de Micologia Médica do Instituto Evandro Chagas, vinculado ao Ministério da Saúde, iniciou um estudo detalhado sobre a esporotricose, doença fúngica que pode ser transmitida por gatos infectados. A pesquisa tem como objetivo analisar um possível surto de esporotricose em Belém e envolve médicos, veterinários, enfermeiros, farmacêuticos e moradores entre 21 e 60 anos da região metropolitana.
O que é esporotricose e como se transmite
A esporotricose é a micose subcutânea mais comum no mundo, especialmente em regiões tropicais e subtropicais. Causada pelo fungo Sporothrix brasiliensis, a doença se manifesta principalmente como lesões na pele, mas pode afetar mucosas e órgãos internos em casos graves, especialmente em pessoas imunodeprimidas.
A transmissão ocorre principalmente de forma zoonótica, ou seja, de gatos para humanos, por arranhões ou mordidas de felinos contaminados. Também existe a transmissão sapronótica, por contato com vegetais ou materiais em decomposição.
“Quando um gato arranha um humano, especialmente braços e pernas, abre-se uma porta de entrada para o fungo se instalar”, alerta Carlos Aguiar, pesquisador da USP e especialista em micologia.
Casos de esporotricose no Brasil
A doença está presente em 26 dos 27 estados brasileiros, com o Rio de Janeiro considerado epicentro. Entre 2023 e junho de 2024, foram notificados mais de 2.100 casos, caracterizando uma epidemia crescente.
Mesmo com tratamento disponível pelo SUS, a esporotricose ainda sofre de subnotificação, dificultando o entendimento real da disseminação da doença. Desde 30 de janeiro de 2024, a notificação da esporotricose é obrigatória pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
Por que a esporotricose é uma ameaça crescente
O Sporothrix brasiliensis se adapta facilmente à temperatura de humanos e gatos, aumentando sua capacidade de infecção. Com o aquecimento global e mudanças climáticas, o fungo tende a se tornar mais resistente, ampliando o risco de contaminação em áreas urbanas.
A combinação de urbanização desordenada, aumento da população felina e contato frequente com ambientes naturais degradados cria condições ideais para a propagação da doença.
Prevenção e combate à esporotricose
Segundo especialistas, a prevenção depende de uma abordagem integrada de Saúde Única, que une saúde humana, animal e ambiental:
- Manter gatos domésticos dentro de casa para reduzir o risco de infecção.
- Capacitar veterinários e tutores para tratamento correto de felinos infectados.
- Promover campanhas educativas sobre esporotricose em escolas, universidades e centros comunitários.
- Investir em diagnóstico rápido e tratamento adequado nos serviços de saúde.
“A obrigatoriedade da notificação é o primeiro passo para garantir diagnósticos mais precisos e controlar a doença”, explica Carlos Aguiar.
Pesquisas em andamento
O estudo do Instituto Evandro Chagas busca mapear o conhecimento sobre a esporotricose e orientar políticas públicas de prevenção e controle da doença na Grande Belém.
Especialistas alertam que, sem vigilância epidemiológica efetiva, a doença pode se tornar ainda mais endêmica, aumentando os riscos para humanos e animais.
Com informações da USP