Reprodução
Reprodução

“Barriguinha de chope”, “pochete”, “pneuzinho”. Os apelidos são quase carinhosos, mas o problema é antigo e nada simpático. A protuberância abdominal costuma indicar gordura visceral, aquela que se instala silenciosamente entre órgãos vitais como fígado, pâncreas e intestino e interfere no funcionamento do organismo inteiro. Não é só estética: esse tipo de gordura estimula inflamação crônica, bagunça hormônios, dificulta a absorção de nutrientes, piora colesterol e glicemia e ainda se associa a maior risco de doenças cardiovasculares, hipertensão, esteatose hepática e diabetes tipo 2. Em bom português: o perigo mora por dentro.

Um alerta simples pode ajudar. Medidas de circunferência abdominal acima de 101,5 cm para homens e 89 cm para mulheres, na altura do umbigo, já acendem o sinal amarelo, mesmo em quem está com o peso “normal”. Avaliações mais precisas, como bioimpedância ou exames de imagem, mostram melhor o tamanho do problema — e costumam tirar qualquer dúvida otimista.

A boa notícia é que dá para começar a virar esse jogo antes mesmo das festas de fim de ano, sem promessas mirabolantes nem fórmulas mágicas. O primeiro passo é abandonar a ideia de emagrecimento relâmpago. Metas curtas e realistas funcionam melhor do que dietas radicais. Estudos mostram que perder apenas 5% do peso corporal já reduz de forma expressiva a gordura no fígado, um dos órgãos mais afetados pela gordura visceral. Para alguém de 90 quilos, isso significa pouco mais de quatro quilos a menos — nada épico, mas extremamente eficaz.

No movimento, menos romantismo e mais estratégia. Exercícios intervalados de alta intensidade, o famoso HIIT, têm se mostrado particularmente eficientes para reduzir gordura abdominal. Sessões curtas, intensas e bem orientadas queimam mais gordura por minuto do que treinos contínuos tradicionais e ainda poupam tempo, algo valioso nessa reta final de ano. Não é sobre treinar mais, é sobre treinar melhor.

No prato, o conselho é antigo e segue firme: comida de verdade. Reduzir ultraprocessados e priorizar alimentos naturais faz diferença concreta. Cereais integrais, como aveia e arroz integral, ajudam a controlar a gordura visceral quando substituem versões refinadas. Gorduras boas também entram no jogo sem culpa. O abacate, por exemplo, apesar de calórico, tem compostos anti-inflamatórios e antioxidantes que auxiliam no equilíbrio metabólico e na redução dessa gordura mais profunda — desde que caiba na rotina alimentar, sem exageros, como manda a tradição do bom senso.

Para quem busca um empurrão extra, algumas abordagens complementares aparecem como coadjuvantes, não protagonistas. Tecnologias como laser infravermelho, associadas a exercício e reeducação alimentar, já mostraram resultados interessantes na redução de gordura e na melhora da saúde hepática. Mas vale lembrar: não existe atalho que substitua mudança de hábito. Esses recursos ajudam, mas não fazem milagres sozinhos.

No fim das contas, perder a barriguinha antes das festas não é sobre caber na roupa nova, embora isso agrade. É sobre chegar ao fim do ano com o corpo funcionando como sempre funcionou melhor quando bem cuidado: com menos inflamação, mais energia e menos risco escondido sob a pele. O resto é conversa fiada de mesa de ceia — e dessa tradição ninguém precisa abrir mão

Editado por Débora Costa