
O Príncipe de Galles, William, de 43 anos, fez um discurso histórico em Belém ao defender uma ação imediata contra a crise climática. No Brasil desde o dia 3 de novembro, ele fez seu primeiro discurso oficial em nome do rei Charles III, de 76 anos, e do governo do Reino Unido — um pronunciamento centrado em uma convicção que pai e filho compartilham há décadas: a de que é urgente agir para conter a crise climática.
Diante de chefes de Estado, líderes globais e representantes de mais de 190 países reunidos na Cúpula de Líderes Mundiais da COP30, o herdeiro britânico abriu sua fala em português, com um sorriso contido e sotaque esforçado: “Bom dia! Muito obrigado, presidente Lula e governador Barbalho, pelas calorosas boas-vindas a Belém do Pará.”
Logo em seguida, o tom se tornou mais solene. William afirmou que esta geração carrega a responsabilidade de proteger o mundo natural para as gerações futuras. “Nossos filhos e netos se apoiarão nos ombros de nossa ação coletiva. Que possamos usar este ambiente inspirador aqui, no coração da Amazônia, para enfrentar este momento — não com hesitação, mas com coragem; não com divisão, mas com colaboração; não com demora, mas com compromisso decisivo.”
CONVOCAÇÃO À CORAGEM E À COOPERAÇÃO
Ao lado do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, o príncipe defendeu uma mobilização global mais inclusiva e imediata, sublinhando a necessidade de “honrar a liderança dos povos indígenas e das comunidades locais”, os primeiros e mais antigos guardiões do planeta.
“Vamos construir um futuro em que a natureza seja valorizada e onde cada criança herde um mundo de prosperidade, não de perigo. Vamos encarar este momento com a clareza que a história exige de nós. Que sejamos a geração que mudou o rumo da história — não para receber aplausos, mas a gratidão silenciosa daqueles que ainda vão nascer.”
O discurso, que foi acompanhado por aplausos prolongados, marcou um dos pontos altos da abertura da conferência. “Nossos filhos e netos estão assistindo e torcendo”, acrescentou o príncipe, em um apelo que misturou emoção e pragmatismo.
“Há algo profundamente simbólico no fato de o herdeiro do trono britânico ter escolhido a Amazônia como palco do seu primeiro grande discurso em nome do rei — o mesmo rei que há meio século já alertava para o que hoje o mundo inteiro finalmente começa a compreender”, comentou um diplomata britânico, durante o discurso do príncipe herdeiro.
REFLEXÕES PESSOAIS E HERANÇA FAMILIAR
Aos jornalistas, fontes próximas ao Palácio de Kensington revelaram que William revisou pessoalmente o texto durante o voo de Londres a Belém — desejava, segundo assessores, “imprimir sua própria voz” ao pronunciamento. E conseguiu.
Embora o discurso tenha sido escrito formalmente em nome do governo britânico, ecoou fortemente a filosofia pessoal do príncipe: a crença no “otimismo urgente” — a ideia de que ainda há tempo de agir, desde que o façamos com determinação e engenho.
“Há muito tempo acredito no poder do otimismo urgente. Mesmo diante de desafios assustadores, temos a engenhosidade e a determinação para fazer a diferença — e para fazê-lo agora”, declarou o príncipe William.
O príncipe também prestou homenagem a seu pai, o rei Charles III, conhecido defensor das causas ambientais desde os anos 1970. “Cresci ouvindo meu pai falar sobre o poder da natureza e sobre a importância da harmonia no mundo natural — um tema que ele defende há mais de cinco décadas. É um privilégio representá-lo aqui hoje, assim como todos aqueles que vêm lutando por essa causa há tantos anos.”
ENTRE O PAÍS DE GALES E A AMAZÔNIA
Durante o discurso, o príncipe relembrou que há dois anos mencionou “o impacto desastroso das inundações, incêndios e secas simultâneos no Brasil” — e destacou que os efeitos da crise climática já não conhecem fronteiras.
Ele citou ainda uma visita feita no início de 2025, à cidade de Pontypridd, no País de Gales, onde famílias enfrentam as consequências de enchentes devastadoras. “Encontrei pessoas que perderam suas casas, seus pertences e sua sensação de segurança. Um morador me contou como o rio, que antes dava vida à cidade, se tornou uma fonte de medo. A resiliência deles é profundamente comovente.”
Essas experiências, segundo William, reforçam a urgência de uma resposta coletiva que una países ricos e em desenvolvimento — um dos temas centrais da COP30 em Belém.
AGENDA QUE LIGA O NORTE AO SUL GLOBAL
A visita do Príncipe de Gales ao Pará ocorreu logo após sua passagem de três dias pelo Rio de Janeiro, onde presidiu a cerimônia da quinta edição do Prêmio Earthshot — iniciativa criada por ele em 2020 para premiar soluções inovadoras aos grandes desafios ambientais do planeta.
“O Earthshot nasceu do desejo de acelerar e destacar as ideias mais promissoras — muitas delas vindas do Sul Global”, disse William durante o evento.
Com essa agenda intensa entre Rio e Belém, o herdeiro britânico reforçou não apenas o compromisso histórico da monarquia com o meio ambiente, mas também a tentativa de construir pontes entre tradição e inovação, entre o legado e o futuro.