
O Auditório A3 da AgriZone, espaço coordenado pela Embrapa durante a COP30, recebeu o painel “Tecendo Soluções: Mulheres da Floresta na Ação Climática e Transição Justa”, promovido pela Rede Mulher Florestal. O encontro reuniu lideranças de comunidades, do setor empresarial, da pesquisa científica, da engenharia e do investimento socioambiental para evidenciar o papel decisivo das mulheres na construção de soluções climáticas e na conservação da floresta.
Estiveram no palco Cindy Correa (IBÁ), Amanda Quaresma (APEF–PA), Adriana Falconeri (CREA–PA), Joice Ferreira (Embrapa), Ana Carolina Vieira (Amazon Investor Coalition), Solange Ikeda (Rede Nativas) e Margarida Florestal, da Resex Verde para Sempre. Juntas, elas apresentaram visões que atravessam territórios urbanos, florestais e redes de inovação, reforçando que não há transição justa sem enfrentar desigualdades de gênero, raça e território.
Lideranças femininas no centro da decisão
Primeira mulher a presidir o CREA–PA, Adriana Falconeri destacou a transformação promovida quando mulheres ocupam espaços historicamente dominados por homens. Segundo ela, ampliar a presença feminina nas engenharias passa por programas de incentivo, visitas a escolas e ações de sensibilização. Mas o desafio vai além da formação: é preciso que tomadores de decisão reconheçam o protagonismo feminino na conservação e no desenvolvimento sustentável.
“Não basta abrir vagas. É preciso mudar a mentalidade de quem controla os recursos e resistem em investir em projetos liderados por mulheres”, afirmou.
Investimento, periferia e o risco da “inclusão de planilha”
Representando a Amazon Investor Coalition, Ana Carolina Vieira levou ao painel a perspectiva de mulheres negras das periferias, muitas vezes mães solo, que sustentam comunidades inteiras. Ela criticou a chamada “inclusão de planilha” – quando projetos citam gênero apenas de forma superficial.
“Não queremos mais projetos que colocam ‘gênero’ no título porque 15 mulheres apareceram numa reunião. Inclusão real significa poder, orçamento e autonomia”, disse.
Maternidade, representatividade e vida prática
Da APEF–PA, Amanda Quaresma relacionou a agenda climática ao cotidiano de mulheres que conciliam trabalho, estudos e maternidade. Contou como depende de uma rede de apoio para participar de eventos e afirma que levar a filha para ambientes majoritariamente femininos é uma estratégia de formação e empoderamento.
“Incluir mulheres não é só ‘estar na sala’. É influenciar decisões e definir prioridades”, destacou.
A voz da floresta: Resex Verde para Sempre
Moradora da Resex Verde para Sempre, recém-premiada pela OMA, Margarida Florestal lembrou que populações tradicionais precisam ser reconhecidas como protagonistas das políticas ambientais.
“Se querem falar de clima e floresta, precisam ouvir quem mora dentro dela. E as mulheres devem ser as primeiras chamadas”, afirmou.
Ela destacou o esforço coletivo da comunidade para garantir presença em espaços como a COP30, ressaltando que conquistas individuais representam o trabalho conjunto de quem mantém a floresta em pé.
Soluções construídas a muitas mãos
O painel evidenciou que não existe neutralidade na transição climática: decisões sobre crédito, prioridades ambientais e desenvolvimento ainda estão marcadas por desigualdades estruturais. Colocar mulheres — sobretudo negras, periféricas, indígenas e extrativistas — no centro do debate é condição essencial para uma transição justa.
Ao ocupar a AgriZone durante a COP30, a Rede Mulher Florestal reforçou que a mudança já está em curso — e que essa transformação não tem retorno.
Editado por Luiz Octávio Lucas