
No segundo dia da Cúpula do Clima em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a sessão temática sobre transição energética com um discurso que buscou conciliar realismo com urgência na ação climática.
Durante sua fala, o presidente enfatizou que acelerar a mudança para fontes limpas e proteger a natureza são os dois pilares imprescindíveis para conter o aquecimento global. “Acelerar a transição energética e proteger a natureza são as duas formas mais eficazes de conter o aquecimento global”, afirmou.
Lula reconheceu as “dificuldades e contradições” enfrentadas pelo Brasil na agenda ambiental e chamou para uma “transição justa e planejada”. Ele reforçou que o país precisa de mapas e estratégias claras para reverter o desmatamento, superar a dependência de combustíveis fósseis e mobilizar recursos.
O presidente destacou ainda que a transição energética global apresenta “atrasos”, e apontou o conflito entre Rússia e Ucrânia como fator determinante para a elevação das emissões de gases de efeito estufa nos últimos anos. Cobrou com veemência que as nações mais desenvolvidas assumam responsabilidade pelos impactos climáticos decorrentes de conflitos armados.
“O conflito na Ucrânia reverteu anos de esforços para redução de emissões de gases de efeito estufa e levou à reabertura de minas de carvão. Gastar com armas o dobro do que destinamos à ação climática é pavimentar o caminho para o apocalipse climático”, ponderou o chefe do executivo do Brasil.
Financiamento e Transição Energética
Lula defendeu que parte dos lucros obtidos com a exploração de petróleo deve ser utilizada para financiar a transição para fontes renováveis, uma estratégia que contraria a recomendação de ambientalistas que preconizam o abandono imediato de combustíveis fósseis. “Direcionar parte dos lucros com exploração de petróleo para transição energética permanece caminho válido para países em desenvolvimento”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o presidente citou a recente licença concedida à Petrobras para explorar o poço da Margem Equatorial, na Amazônia, como exemplo de que o Brasil continuará combinando produção de recursos fósseis com investimento em energia limpa — postura que tem gerado intensa crítica no meio ambiental.
No centro do debate, o presidente defendeu que a transição energética não pode ser apenas técnica, mas deve englobar justiça social e integração entre governos, setor privado e sociedade civil. Ele afirmou que a agenda climática deve ocupar “lugar central nas decisões de cada governo, de cada empresa, de cada pessoa”.
Lula argumentou que países do Sul Global ainda carecem de tecnologia e recursos financeiros para migrar integralmente para matrizes limpas e cobrou mecanismos que permitam troca de dívida por financiamento de iniciativas climáticas.
Na plataforma da conferência, Lula exigiu urgência e ação concreta: que as decisões não fiquem apenas em discursos, que os países ricos reparem pelos danos já causados e que o etanol — citando-o como alternativa viável inmediata — seja reconhecido e impulsionado pela comunidade internacional. Ele criticou a Organização Marítima Internacional (IMO) por adiar a certificação do combustível como alternativa para transportes.
A declaração de Lula ocorreu num momento decisivo da COP30, em que os países discutem a redução de emissões, o fim dos combustíveis fósseis e o financiamento climático global. O presidente da Organização das Nações Unidas, António Guterres, havia alertado para falta de “coragem política” entre as nações para abandonar o petróleo.
Desafios e Críticas à Posição Brasileira
Entretanto, o discurso não deixou de enfrentar críticas: enquanto Lula defendia esse caminho, o país também enfrenta pressão pelo aumento da exploração de petróleo e gás — uma contradição que analistas e ambientalistas apontam como desafio à credibilidade da posição brasileira.
Com a Amazônia como palco deste debate global, a sessão reforça a ambição do Brasil de situar a transição energética como tema central da sua diplomacia climática — mas deixa claro que o resultado dependerá de ação concreta e coerente.