COP das Mulheres aponta impacto do clima na renda e segurança de milhões de brasileiras. Foto: Antonio Melo
COP das Mulheres aponta impacto do clima na renda e segurança de milhões de brasileiras. Foto: Antonio Melo

Integração entre justiça climática e igualdade de gênero foi foco da COP das Mulheres, realizada nesta sexta-feira (14), no Teatro Margarida Schivasappa, na Fundação Cultural do Pará (FCP). Organizado pelo Grupo Mulheres do Brasil, o evento reuniu lideranças femininas de todo o país para discutir temas fundamentais à transição climática justa, considerando as particularidades de gênero, no intuito de traçar soluções à crise climática. O evento foi balizado pelos desdobramentos da Carta das Mulheres para a COP30, que reúne propostas para uma agenda de ação. 

Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO PARÁ, a presidente do Grupo Mulheres do Brasil, Luiza Helena Trajano, CEO das lojas Magazine Luiza, explicou o processo de construção coletiva da Carta, que reúne propostas suprapartidárias e interseccionais em torno do compromisso de transição ecológica justa, democrática e inclusiva ao gênero. 

Luiza Helena Trajano, CEO das lojas Magazine Luiza
Luiza Helena Trajano, CEO das lojas Magazine Luiza

A Carta das Mulheres para a COP-30 é um documento produzido pelo Ministério das Mulheres, em parceria com o Grupo Mulheres do Brasil, fruto do diálogo com movimentos, organizações, parlamentares, gestoras públicas e lideranças sociais de diversos territórios. É um instrumento estratégico de tomada de decisão política, com origem na Bancada Feminina na COP-30, evento realizado em Brasília, em outubro deste ano.

A iniciativa simboliza a mobilização nacional pela centralidade das mulheres na agenda climática mundial, sobretudo aquelas que vivem e atuam nos territórios amazônicos, sendo estas instrumento essencial nas decisões e soluções para a crise do clima.

“Foi um trabalho muito grande, começou em Brasília com representantes políticas, depois entraram as associações, institutos e cooperativas de mulheres. Fizemos uma pesquisa com mais de 300 mulheres, fora os nossos 154 núcleos espalhados pelo mundo todo, sobre o que gostariam que escrevessem. É uma carta muito democrática”, garante Trajano. 

O documento é estruturado em sete eixos temáticos: biomas e territórios; economia verde e inovação; financiamento climático com perspectiva de gênero; redes femininas e participação nas decisões climáticas; educação para resiliência climática e comunicação; justiça climática e direitos humanos; e monitoramento, dados e transparência. A carta será apresentada como contribuição da sociedade civil organizada como colaboração às decisões a serem tomadas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30). 

A ideia é deixar um legado de continuidade às ações do Grupo Mulheres do Brasil e acompanhar os possíveis acordos firmados na COP. “O que o Grupo Mulheres do Brasil, esparramado pelo mundo todo, faz é olhar o que está sendo feito para não ficar só nesses dias, e ajudar a fazer também, porque não adianta só ficar cobrando. Nós vamos ficar muito atentos nessa região, no Brasil e também no mundo inteiro ao que foi acertado. Vamos acompanhar os acordos que foram feitos aqui. Os eixos de acordo olham pelas minorias que mais sofrem com o clima e com a violência”, afirmou a presidente. 

De acordo com Luiza Helena Trajano, as mulheres amazônidas devem ocupar o protagonismo na agenda climática global. “As mulheres daqui, da Amazônia, estão mais perto de proteger o clima. Temos que dar protagonismo para as mulheres locais e não só as mulheres globais, isso é uma obrigação nossa. O Grupo Mulheres do Brasil fez questão de dar protagonismo às líderes de Belém. Elas foram a protagonista desde a primeira reunião, não fomos nós que fizemos, mas elas que fizeram, onde quiseram, do jeito que quiseram, trazendo mulheres, artistas e exemplos da região nessa grande oportunidade”, disse. 

Relevância e Impacto da COP das Mulheres

RELEVÂNCIA

Em discurso na cerimônia de abertura da COP das Mulheres, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, apontou as consequências das mudanças climáticas no cotidiano de mulheres ao redor do mundo, em especial o aprofundamento de violências de gênero e o comprometimento da renda familiar. 

“A cartilha mostra que desastres climáticos aumentam a violência doméstica e sexual, que a sobrecarga de cuidado recai ainda mais sobre as mulheres que são trabalhadoras rurais, pescadoras, marisqueiras, catadoras de material reciclável, as extrativistas, as mulheres dos campos e florestas, que estão expostas a riscos extremos e que a dificuldade econômica limita drasticamente a capacidade de adaptação e de recuperação”, apontou a titular da pasta. 

Nesse sentido, o documento ainda aponta que as mulheres têm papel fundamental no protagonismo às respostas climáticas. “São elas que lideram sistemas de manejo sustentável, que articulam iniciativas de economia solidária, que protegem sementes e florestas, que cuidam da água, que mantêm viva a tradição dos povos da floresta e que são, muitas vezes, a única presença do Estado nos territórios esquecidos. Reconhecer isso não é um gesto simbólico, é uma exigência de eficácia das políticas públicas. É uma responsabilidade de todas nós que ocupamos um espaço, um lugar de poder, de comando, seja no nível federal, estadual ou municipal”, afirmou Lopes. 

Sobre a COP das Mulheres

Entre as autoridades presentes na COP das Mulheres estavam as ministras das Mulheres, Márcia Lopes, e da Cultura, Margareth Menezes; as secretárias estaduais de Mulheres, Ana Paula Freitas; e de Cultura, Úrsula Vidal; as ativistas ambientais Vanda Witoto e Jennyffer Bransfor, além de representantes de ONGs e fundos de financiamento, associações e organizações. 

Como parte da programação, o Grupo Mulheres do Brasil apresentaram o painel “Estratégias de Combate à Violência contra Mulheres e Meninas: Agenda Mulheres, Paz e Segurança”, que colocou em pauta medidas para agregar igualdade de gênero às políticas de combate e adaptação às mudanças climáticas, tendo em vista a proteção dos direitos humanos e segurança em cenários de crise. 

“Hoje nos sentimos todas mulheres amazônidas”, disse a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, na cerimônia de abertura. Na ocasião, a titular da pasta destacou a relevância de pensar a justiça climática a partir da justiça de gênero, construída através do protagonismo das mulheres. Reunir lideranças femininas da Amazônia e demais biomas brasileiros, para Lopes, é um ato necessário para pensar nas mudanças climáticas. 

“É um gesto profundamente necessário porque quando olhamos para a realidade concreta das mudanças climáticas, vemos que as mulheres estão ao mesmo tempo na linha de frente dos impactos e na linha de frente das soluções. Elas enfrentam enchentes, secas, desastres e perdas econômicas com menos recursos, menos acesso à terra, menos segurança e oportunidades. E, apesar disso, continuam sustentando comunidades inteiras, organizando redes de cuidado, preservando territórios e reconstruindo o que a crise climática destrói”, declarou. 

Na ocasião, a ministra da Cultura ressaltou a atuação política da pasta voltada às mulheres, especialmente mulheres negras e indígenas, através da incorporação de perspectivas de gênero em programas nacionais e incentivo aos estados e municípios para que adotem o mesmo caminho. A participação do órgão em debates climáticos têm reforçado a ideia de que políticas sociais e ambientais precisam caminhar juntas.

“A pauta climática diz respeito à vida de todos nós, de mulheres, crianças, homens, meninos e meninas, diz respeito à humanidade. Cada pessoa, no lugar onde vive, pode começar a induzir esse diálogo e contribuir da melhor maneira possível, dividindo o lixo, economizando energia, fazendo sua parte para diminuir o desequilíbrio climático, que atinge principalmente as pessoas mais pobres”, finalizou Margareth Menezes

Os sete eixos temáticos da Carta das Mulheres para a COP-30

A Carta das Mulheres para a COP-30 foi construída a partir da articulação de movimentos femininos, instituições públicas e lideranças sociais. O documento reúne sete eixos estratégicos que orientam uma agenda climática justa, inclusiva e com perspectiva de gênero. Veja cada um deles:


1. Biomas e Territórios

Defende ações integradas de proteção e regeneração ambiental, aliadas à governança socioambiental dos territórios. O eixo reforça o reconhecimento dos saberes tradicionais femininos e o fortalecimento das defensoras ambientais que atuam na linha de frente da proteção da natureza.


2. Economia Verde e Inovação

Propõe o estímulo ao empreendedorismo feminino na economia verde, valorizando a economia do cuidado e garantindo políticas de crédito, inovação e incentivos fiscais que considerem os recortes de gênero.


3. Financiamento Climático com Perspectiva de Gênero

Cobra maior equidade na distribuição dos recursos climáticos. O eixo também sugere a criação de fundos específicos e a simplificação do acesso de mulheres, povos tradicionais e comunidades vulneráveis ao financiamento climático.


4. Redes Femininas e Participação nas Decisões Climáticas

Defende o fortalecimento das redes femininas de justiça climática e a participação plena, diversa e representativa de mulheres nos espaços de governança e tomada de decisão ambiental.


5. Educação para Resiliência Climática e Comunicação

Valoriza a educação climática com abordagem de gênero, unindo saberes científicos e conhecimentos tradicionais. O eixo prevê o uso da comunicação, da cultura e de ferramentas educativas como instrumentos de transformação social e ambiental.


6. Justiça Climática e Direitos Humanos

Enfatiza a proteção das defensoras ambientais e a integração da agenda “Mulheres, Paz e Segurança” às políticas climáticas. Reforça a necessidade de articular justiça social e ambiental para enfrentar os impactos da crise climática sobre grupos mais vulneráveis.


7. Monitoramento, Dados e Transparência

Propõe a criação de observatórios e sistemas de monitoramento climático com perspectiva de gênero. A intenção é garantir transparência, controle social e visibilidade às ações e desafios vividos por mulheres nos diversos territórios.