
Durante a COP30, em Belém, o Fórum Brasileiro das Climatechs e a Climate Ventures, em parceria com a iniciativa global CATAL1.5ºT da GIZ, lançaram o relatório “Unlocking Brazil’s Climate Tech Potential”, que traz um panorama inédito sobre o ecossistema de inovação climática no Brasil. O estudo, lançado ontem (17) na Casa ComBio, na Ilha do Combu, apresenta dados, análises e recomendações para transformar o país em um polo global de tecnologia climática, mas deixa claro que a base já existe, o desafio agora é mobilizar financiamento, políticas públicas e infraestrutura para dar escala às soluções.
O documento aponta que o Brasil reúne condições únicas como a biodiversidade, matriz energética limpa, conhecimento científico e empreendedorismo robusto para liderar a transição rumo à nova economia verde. No entanto, ainda recebe apenas 0,8% dos US$ 92 bilhões investidos globalmente em soluções climáticas, o que representa US$ 743 milhões, número desproporcional à relevância ambiental e econômica do país. “Esse descompasso revela a dimensão da oportunidade e do desafio que temos pela frente. O Brasil reúne recursos naturais, talento e tecnologia, mas ainda carece de financiamento adequado e de políticas que tratem a inovação climática como estratégia de desenvolvimento”, afirma Zé Gustavo, diretor executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs.
Definição inédita de climatechs e um novo campo de inovação
O estudo apresenta uma delimitação inédita para o conceito de climatech no Brasil, com empresas de base tecnológica, software, hardware ou biotecnologia, com soluções escaláveis voltadas à mitigação ou adaptação climática, com impacto ambiental mensurável. A definição ajuda a estruturar dados, orientar políticas públicas e atrair
investimentos, sem desconsiderar outras formas de inovação, como saberes tradicionais e soluções baseadas na natureza.

Para Ana Himmelstein, diretora executiva do Fórum, o estudo preenche uma lacuna histórica. “Conversamos com empreendedores, pesquisadores, investidores e formuladores de políticas públicas para entender as barreiras e as potencialidades reais. Fizemos entrevistas em profundidade com 25 especialistas, realizamos eventos de validação com dezenas de atores e cruzamos dados nacionais e internacionais. O Brasil tem uma base sólida de inovação climática. Agora precisamos construir pontes entre tecnologia e capital, entre política pública e mercado.”
Mercados promissores e a nova fronteira da economia verde
O relatório identifica oito verticais prioritárias que formam a espinha dorsal da nova economia climática brasileira, que são a Agricultura e Sistemas Alimentares, Florestas e Uso da Terra, Energia e Biocombustíveis, Gestão de Resíduos, Indústria, Água e Saneamento, Mobilidade Sustentável e Soluções Transversais, como dados, monitoramento e fintechs verdes. São setores que movimentam dezenas de bilhões de dólares e que estão no centro das ambições globais de descarbonização.
Na agricultura, por exemplo, a expansão do crédito rural verde já movimenta US$ 9,9 bilhões anuais, enquanto o setor florestal alcançou R$ 44,3 bilhões em 2024, impulsionado pela nova lei de mercado de carbono. No setor de resíduos, as soluções de bioenergia e logística reversa deverão elevar o mercado de US$ 25,8 bilhões para US$ 38,9 bilhões até 2033. “Estamos à frente das economias mais avançadas do mundo em um ponto, a tecnologia aplicada em grande escala ao agronegócio”, afirma Sérgio Rocha, CEO da Agrotools. “O agro do futuro combina dados, rastreamento, sustentabilidade e tecnologia de impacto.”
Casos amazônicos: inovação aplicada e impacto local
O evento trouxe também exemplos concretos do uso de tecnologia para mitigar emissões e resolver desafios ambientais. A ComBio, empresa de transição energética, desenvolveu um sistema de caldeiras elétricas e de biomassa que já evitou mais de 700 mil toneladas de CO₂, substituindo combustíveis fósseis por resíduos como o caroço de açaí, que antes era um dos maiores problemas ambientais no Pará, capaz até de comprometer rios e igarapés. “Transformamos um passivo ambiental em fonte de energia renovável. Hoje, esse projeto é estudado na Fundação Getúlio Vargas e prova que inovação climática pode nascer na Amazônia.”
O chamado à ação
O relatório conclui com uma recomendação clara de que o Brasil tem os ativos, o mercado e as soluções, mas precisa destravar o capital e ativar políticas ambiciosas para se tornar líder global em inovação climática. “O Brasil tem um potencial incomparável. O nosso país deveria ser a liderança. Isso com certeza é o que vai mudar o PIB do nosso país e a economia do nosso país nos próximos anos. Agora, precisamos colocar todos os atores conversando e trabalhando juntos”, destaca Heloísa da Mota, diretora da iniciativa Onda Verde, que reuniu mais de 1.800 soluções sustentáveis cadastradas, por setor, em uma plataforma nacional.