Foto: Instagram Reprodução
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Até o próximo dia 16 de novembro, Belém recebe a Cúpula dos Povos, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em um encontro que reúne movimentos sociais, organizações populares, povos indígenas e comunidades tradicionais de todo o país. O objetivo é agregar conhecimento em torno das perspectivas sociais e ambientais da agenda climática, ecoando as vozes das comunidades e dos territórios de resistência, em um evento paralelo à 30a Conferência das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas (COP30). 

Na manhã desta quinta-feira (13), segundo dia do evento, a programação foi marcada por diálogos e construções coletivas, com a realização da Cúpula das Infâncias, Plenárias temáticas sobre solidariedade, resistência e esperança; atividades culturais e mobilização e a feira popular. À tarde, o evento teve extensa programação dos Enlaces dos Eixos de Convergência, abordando questões sobre crise hídrica, defesa dos territórios e direito à terra, e soberania alimentar. 

De acordo com uma das organizadoras da Cúpula, Sara Pereira, membro do Fórum Social Pan-Amazônico, o evento partiu da Carta Política da Cúpula dos Povos, assinada por 1,5 mil organizações e movimentos sociais nacionais e internacionais participantes do encontro. O principal objetivo é oportunizar a ampla participação da sociedade civil global nas pautas da agenda climática, após anos de realização da Conferência da ONU em países autoritários. 

“Queremos uma ampla participação da sociedade civil que tenha pauta climática, da justiça climática nas suas bandeiras de luta, principalmente considerando que a COP 30 está sendo realizada na Amazônia, no Brasil, que é um país democrático e gerou grande expectativa da sociedade civil global de poder retomar esse espaço da Cúpula dos Povos, que não se inaugura agora, mas é um processo construído desde a Eco 92”, disse. 

O evento traz como foco central a justiça climática a partir do entendimento das consequências das emergências de clima como fruto de um modelo de economia que gera desequilíbrios ambientais, culminando em eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, que influenciam diretamente na produção de alimentos pela agricultura familiar. “Fazemos o debate da crise climática não somente pelo viés da adaptação ou de ações de mitigação. A nossa chave quer dizer que não tem como promover uma discussão sobre justiça climática e ambiental sem lutar por direitos básicos da população, como o acesso à água”, afirmou Sara. 

Abertura e Objetivos da Cúpula dos Povos

Uma barqueata com 200 embarcações pela Baía do Guajará marcou a abertura da Cúpula dos Povos, na tarde da última quarta-feira (12). Em um percurso fluvial de quase 30 quilômetros, o ato político visava ressaltar a importância da defesa das águas como território de luta e bem viver das comunidades tradicionais e povos indígenas, sobretudo, da Amazônia brasileira. “Queríamos mostrar a importância da defesa das águas como território de luta e de bem viver, da proteção das águas dos rios, dos mares, dos oceanos, da Amazônia e do mundo inteiro. Essa mensagem simboliza que os povos se aliançaram nos barcos pela luta e esperança”, apontou a organizadora. 

Programação e Eixos Temáticos

A Cúpula dos Povos é movida por seis eixos temáticos, em um diálogo transversal: Justiça Climática e Reparação; Transição Justa, Popular e Inclusiva; Soberania Alimentar e Agroecologia; Direitos Territoriais e das Florestas; Internacionalismo e Solidariedade; e Perspectivas Feministas e dos Povos nos Territórios. 

Construída na perspectiva de processo, o evento busca promover o “enlace” entre organizações, movimentos e povos do mundo todo. “As atividades Enlaces foram construídas na perspectiva de enlace dos seis eixos, envolvendo organizações do Brasil e de todas as partes do mundo. A ideia é que o legado dessa Cúpula siga como um grande enlace, que as organizações sigam se comunicando, construindo coisas juntas, pensando estratégias coletivas, envolvendo uma escala regional, nacional e até internacional, colocando realmente os povos de lutas em aliança”, explicou a membro do Fórum Social Pan-Amazônico. 

A ideia é que, ao final do evento, seja construída a Carta Política da Cúpula dos Povos de Belém com mensagens-chave para soluções para a crise ambiental, construída em conjunto com as comunidades tradicionais e originárias, assentamentos, além das pautas levantadas durante as plenárias temáticas. Uma das respostas envolve a preservação e o fortalecimento dos territórios amazônicos, incluindo a sua população e biodiversidade. 

“A Cúpula diz que as verdadeiras soluções vem dos territórios. É preciso mudar para fazer uma transição não somente de matriz energética, mas do modelo de economia, com o foco em economias cada vez mais circulares, que respeitem os ciclos da natureza e os territórios pan-amazônicos de uma maneira geral. Temos muito o que contribuir com nossos modos de vida. Queremos demonstrar que soluções que falamos venham desses territórios”, declarou Sara Pereira. 

O documento será entregue ao presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, no próximo domingo (16), em audiência pública, às 9h, próximo ao prédio do Mirante do Rio, na UFPA. “Essa carta vai ser entregue para que os elementos deste documento tenha incidência, de alguma maneira, sobre as decisões que serão tomadas na COP 30, no texto final dos negociadores”, pontuou. 

Antes disso, no sábado (15), uma Marcha Global pelo Clima será realizada em Belém, com concentração no Mercado de São Brás, às 8h, e saída às 9h rumo à área próxima a Zona Azul (Blue Zone).  A programação finaliza no dia 16 com um banquetaço na praça da República, às 14h, com acesso a comida saudável e de qualidade. 

Uma feira de artesanato popular está sendo realizada ao lado do prédio Mirante do Rio, com expositores de diversas regiões do Brasil, com destaque para artistas indígenas e quilombolas. O evento era a oportunidade de divulgar o trabalho produzido nas comunidades localizadas nos interiores dos territórios amazônicos. 

O projeto Tranças de Ouro, composto por famílias da Vila de Pacajá, no município de Cametá (PA), tem ajudado mulheres da comunidade amazônica a transformar resíduos da floresta em peças de arte e fonte de renda, através de um projeto da Universidade Federal do Pará. Criado em 2019, o grupo reúne mais de cinco famílias que produzem cestos, bolsas e bijuterias a partir da palha do tucumanzeiro e das sementes nativas da região. 

Entre as peças expostas em feiras e eventos, as bolsas feitas à mão se destacam pelo acabamento detalhado e pelo uso de sementes como ornamento. Todo o processo é artesanal: a palha é retirada de forma controlada da floresta, seca por dias e trançada manualmente ao longo de três jornadas de trabalho. Para garantir durabilidade, o material recebe apenas uma fina camada de verniz natural, mantendo o aspecto original da fibra.

O trabalho, além de gerar autonomia financeira, busca valorizar o trabalho feminino e preservar o conhecimento tradicional do trançado amazônico. “Nosso carro forte são as cestarias e as bolsas. A gente tira só o necessário da floresta e faz tudo à mão, com cuidado e respeito. Cada bolsa leva uns três dias para ficar pronta. É um trabalho que dá autonomia para as mulheres e mostra que dá pra viver daquilo que a floresta oferece, sem destruir”, afirma uma das artesãs do grupo, Josineia Veloso. 

Natural da microrregião do Alto Solimões, no estado do Amazonas, a Cacica Bia Kokama é uma das expositoras da feira. Com artesanatos produzidos por indígenas da região, como os povos Hixkaryana, Ticuna, Kokama e Mura, ela diz que a feira é a oportunidade de conectar as populações e demonstrar o trabalho totalmente sustentável e artesanal produzido na própria aldeia. 

“É uma oportunidade única de mostrar o que você faz dentro da sua aldeia. Aqui são todos artesanatos naturais, feitos de caroços de frutas, como tucumã, açaí, morototó, que é a semente colhida e limpa para produzir essas lindezas. São todas sementes que tem na aldeia. A gente pega, dá o polimento ou trabalha com ela toda natural mesmo para fazer uma pulseira ou um colar”, afirmou. 

Editado por Luiz Octávio Lucas

Trayce Melo

Repórter

Jornalista com experiência em redação, conteúdo digital e comunicação pública. Atuou na Secretaria de Turismo do Pará, na Prefeitura de São Sebastião da Boa Vista e como analista de marketing na Enter Agência Digital. Vencedora do Prêmio Internacional Premium COP 30 Amazônia. Atualmente, é repórter do Diário do Pará.

Jornalista com experiência em redação, conteúdo digital e comunicação pública. Atuou na Secretaria de Turismo do Pará, na Prefeitura de São Sebastião da Boa Vista e como analista de marketing na Enter Agência Digital. Vencedora do Prêmio Internacional Premium COP 30 Amazônia. Atualmente, é repórter do Diário do Pará.