
A 30ª Conferência da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) começou com saldo positivo, com consenso sobre a agenda de negociações já no primeiro dia. Mas para que a primeira da história sediada em uma capital amazônica seja considerada vitoriosa, as negociações precisarão avançar nesta segunda e última semana de cúpula, que tem encerramento previsto para o próximo dia 21 de novembro.
A Especialista sênior do Instituto Clima e Sociedade (iCS) para Estratégias Internacionais, Cintya Feitosa, lembra que a segunda semana de uma COP é marcada pela participação à nível ministerial dos representantes dos países. É, portanto, na segunda semana que as negociações precisam avançar no nível político.
“O que a gente precisa ver entre agora e a próxima semana é mais engajamento dos países em relação às propostas que foram trazidas na semana passada no encontro de líderes”, considera. “Por exemplo, a gente ainda não vê com muita força nas salas de negociação a discussão a respeito da transição dos combustíveis fósseis e do mapa do caminho para essa transição; assim como a respeito da transição para o fim do desmatamento e da degradação florestal em 2030. Então, a gente vai precisar de maior engajamento dos países para entregas muito concretas também no alto nível político”.
Apesar dessa responsabilidade, Cintya lembra que já é esperado que, em uma COP, a primeira semana encerre ainda com muitas pendências a serem resolvidas. “As coisas ainda precisam ser amarradas e está tudo bem porque a gente ainda está em tempo, mas precisa de uma aceleração e que outros países também não tragam posicionamentos que já foram trazidos anteriormente nessa sala de negociação. O que a presidência da COP tem pedido é que venham com soluções para temas que ainda não estão em consenso”, apontou.

“A gente espera que até segunda-feira muita coisa aconteça em relação às consultas que o Brasil está conduzindo com outros países, seja bilateralmente ou dentro das salas de negociação, para avançar em textos concretos para sair, então, essa decisão da COP. A gente espera ver esses elementos de aceleração da implementação muito explícitos em todas essas salas de negociação”.
A especialista aponta que também é esperado um maior avanço na agenda de adaptação. Uma agenda urgente e que, portanto, não pode ser adiada para os próximos anos.
“A gente já está vendo os eventos climáticos extremos com secas e enchentes. A gente teve casos recentes no Brasil na semana passada, tem casos em vários lugares do mundo, nas Filipinas, Jamaica, em países desenvolvidos que, da mesma forma, enfrentam secas, ondas de calor, enchentes. Então, essa discussão sobre adaptação, sobre como vamos medir se os países estão ficando mais vulneráveis ou não, não pode ser deixada para outras COPs”, avalia. “Então, os países vão realmente precisar avançar um pouco nos consensos para gente chegar ao final dessas duas semanas com uma decisão muito robusta sobre isso, para essa ser a COP da implementação e da adaptação também”.
Como os negociadores chegam à segunda semana?
Na avaliação do diretor executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic, a primeira semana da COP30 mostrou uma agenda de ação muito mais estruturada e integrada às negociações formais. “Desde que esse esforço começou em Paris, há dez anos, vemos agora em Belém uma continuidade, com um novo formato e uma nova estrutura que vão se refletir na agenda para os próximos cinco anos. A presidência brasileira conseguiu criar espaços de diálogo mais abertos, trazendo propostas e caminhos concretos para temas críticos”.

Ele aponta que, para o WWF, esse alinhamento entre soluções em larga escala e decisões negociadas é essencial para acelerar as transformações urgentes que o planeta exige. “Vimos avanços no debate sobre a transição energética, no reconhecimento da urgência de proteger florestas tropicais e na consolidação dessa visão de longo prazo. O desafio agora é transformar esse impulso inicial em decisões claras e coerentes, capazes de orientar uma ambição real até o fim da conferência.”
No que se refere à adaptação, um ponto chave da COP de 2025, a especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil, Flávia Martinelli, considera que “os trabalhos foram intensos nas salas de adaptação, com as agendas dos planos nacionais de adaptação (NAPs) e da Meta Global de Adaptação (GGA) avançando mesmo com divergências iniciais. Os países têm trabalhado em reuniões paralelas para avançar as conversas mais difíceis, como alguns indicadores do GGA que estão em discordância com as regras do jogo. É perceptível a vontade política para concretizar que esta é uma COP da Adaptação, o que coloca um senso de otimismo sobre o resultado da COP30”.

Já a presidente do Instituto Talanoa, Natalie Unterstell, compara a primeira semana da COP30 com o ensaio de uma escola de samba. “Ajuda a entender onde estamos avançando e o que precisa ser ajustado, mas não vale nota. Desde segunda-feira vimos o esforço para manter mesas funcionando, limpar textos e evitar travamentos. O resultado foi uma semana “produtiva” no sentido burocrático, porém muito aquém da realidade do planeta. Nenhuma aterrissagem política importante ocorreu até agora. O desfile para valer começa na semana que vem, com o início da etapa ministerial, de decisões políticas”, analisa.
“Como em uma escola de samba, algumas alas evoluem melhor que outras. Até agora, adaptação segue tratada como coadjuvante, sempre à sombra da mitigação, porém a próxima semana pode colocá-la no destaque merecido. Os países vulneráveis entram com menos paciência e mais munição política”.
Florence Laloë, diretora sênior global de políticas climáticas da Conservação Internacional, considerou que o trabalho nas salas de negociação sobre os diversos temas que fazem da COP30 uma “COP da Natureza e da Implementação” tem sido intenso. “Há compromisso real em alcançar conquistas para a natureza e para o bem-estar das pessoas”, considera. “Estamos falando de temas difíceis, com muitos grupos à mesa. Esse debate é importante, e até pequenos avanços merecem ser reconhecidos. Com base no que vimos esta semana, olhamos para a próxima com esperança e otimismo – um otimismo realista – porque sabemos que nenhuma COP, sozinha, pode entregar todas as ferramentas necessárias, mas a urgência e a gravidade da emergência climática já em curso exigem investimentos drásticos”.
Editado por Débora Costa