Foto: Ricardo Stuckert / PR
Foto: Ricardo Stuckert / PR

As próximas duas semanas serão marcadas pela expectativa de que representantes de diferentes países do mundo encontrem caminhos para implementar ações efetivas contra a emergência climática. Entre os dias 10 e 21 de novembro, Belém sedia a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP30) e o termômetro que indica o que é possível esperar da reunião global foi mensurado ainda na Cúpula dos Líderes, realizada nos últimos dias 06 e 07 no Parque da Cidade, na capital paraense.

No espaço que a partir de segunda-feira (10) concentrará grande parte da programação da COP30, os líderes de governos e representantes de alto nível de mais de 70 países apontaram suas impressões sobre a emergência climática enfrentada pelo mundo e sinalizaram o que e o quanto estão dispostos a fazer para unir esforços em busca da meta de 1,5°C.

Abrindo o pronunciamento dos chefes de estado durante a plenária geral da cúpula, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, destacou a relevância de se realizar uma conferência do clima em um país amazônico pela primeira vez na história e reforçou a necessidade de a ciência ser o principal guia das decisões. “A COP30 será a COP da verdade. É o momento de levar a sério os alertas da ciência. É hora de encarar a realidade e decidir se teremos ou não a coragem e a determinação necessárias para transformá-la”.

Destacando o desafio de enfrentar as divergências que ainda persistem, o presidente destacou que as palavras ditas na Cúpula dos Líderes serão a “bússola” da jornada a ser percorrida pelas delegações nas próximas semanas. E, no que se refere à posição do Brasil, Lula prometeu honrar os legados deixados pelas COPs 28 e 29. “A humanidade está ciente do impacto da mudança do clima há mais de 35 anos, desde a publicação do primeiro relatório do IPCC. Mas foram necessárias 28 conferências para que se reconhecesse pela primeira vez, em Dubai, a necessidade de se afastar dos combustíveis fósseis e de parar e reverter o desmatamento. Foi preciso um ano adicional para que se admitisse, em Baku, a perspectiva de ampliar o financiamento climático para um trilhão e trezentos bilhões de dólares. Belém honrará os legados das COPs 28 e 29”.

Entre a sociedade civil, a sinalização dada pelo Governo Brasileiro repercutiu de forma positiva e reforçou a expectativa por um compromisso que leve à ação. Para o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, o sucesso da COP30 será concreto se for possível transformar as palavras do Presidente Lula em resolução final. “Em seu discurso, o presidente Lula afirmou que precisamos de um mapa do caminho para acabar com o desmatamento e o uso dos combustíveis fósseis. É exatamente do que precisamos e é exatamente o que esperamos que a presidência da conferência coloque como proposta sobre a mesa”.

O citado ‘mapa do caminho’ também foi destacado pela especialista sênior do Instituto Talanoa, Marta Salomon. “O discurso do presidente Lula na abertura da cúpula dos líderes aumenta a expectativa de que a COP 30 desenhe um ‘mapa do caminho’ para longe dos combustíveis fósseis e para mobilizar recursos necessários para evitar perdas humanas e materiais que ele mesmo classificou de ‘drásticas’. Seria a forma de completar o trabalho de duas cúpulas anteriores, em Dubai e Baku”.

A diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali, avaliou que o presidente fez um discurso forte, mas para que a COP realizada em Belém entre para a história, considerou que será necessário concretizar a promessa de que a conferência encerre com um mapa do caminho para reverter o desmatamento até 2030 e superar a dependência dos combustíveis fósseis. “Precisamos de planos concretos, mecanismos de implementação e fontes claras de financiamento. O desafio agora é transformar essas palavras em ação, sob liderança do Brasil”.

Já a especialista em clima e líder de estratégia internacional do WWF-Brasil, Tatiana Oliveira, citou a ferramenta que é tida como a grande aposta do Governo Brasileiro na COP30 que se inicia, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). “O discurso do presidente Lula trouxe uma sinalização positiva para a implementação do Pacote Natureza para o enfrentamento da crise climática. Essa é uma demanda que o WWF-Brasil e outras organizações da sociedade civil defendem para estreitar as sinergias entre as três diferentes convenções do Rio: de clima, biodiversidade e desertificação. Nesse contexto, é imperativo que, entre outras ações e decisões, haja adesão suficiente para colocar em operação o TFFF. A COP30 pode ser a COP da Natureza e o mundo não pode perder essa oportunidade”.

FUNDO FLORESTAS TROPICAIS

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) foi lançado oficialmente durante o primeiro dia da Cúpula do Clima, pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o Governo Federal, a ferramenta de financiamento pretende auxiliar países a conservarem as florestas tropicais, presentes em mais de 70 nações, incluindo o Brasil. O fundo deve combinar recursos públicos e privados na forma de investimento, e não de doação. Passadas algumas horas do lançamento, por volta de 18h do dia 06 de novembro, o fundo já atingia o aporte de 5,5 bilhões de dólares, sendo 1 bilhão destinado pelo Governo do Brasil.

Para a diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, Maria Netto, o que se espera é que novos anúncios de apoio ao Fundo sejam realizados não apenas durante a COP, mas ao longo de 2026. “Celebramos o entendimento e a adesão significativa dos governos de todas as regiões do mundo ao TFFF. O volume de recursos anunciado demonstra que o fundo é um mecanismo consistente e inovador de financiamento climático de longo prazo”, considera. “O esperado é que o TFFF contribua de forma decisiva para estabelecer um novo padrão de financiamento climático, que proteja as florestas e garanta protagonismo às demandas dos povos originários e comunidades locais. Temos certeza de que outros anúncios de apoio ao Fundo virão ao longo do próximo ano”.

“Chegou a hora de implementar”.

Presente na Cúpula dos Líderes, reunião que antecedeu o início da COP30, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, também deu o tom do clima que espera para as discussões da conferência que inicia na segunda-feira (10). Para ele, o momento não é mais o de negociar. “Esta COP deve impulsionar uma década de aceleração e resultados concretos. Primeiro, os países devem concordar com um plano de resposta ousado e credível para reduzir a lacuna de ambição das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) para 1,5°C. Em segundo lugar, devemos demonstrar um caminho claro para atingir os 1,3 biliões de dólares americanos por ano em financiamento climático para os países em desenvolvimento até 2035, conforme acordado na COP 29 em Baku”, pontuou. “Não é mais hora para negociações. Chegou a hora de implementar, implementar e implementar”.

Considerando os desafios que se tem pela frente, Guterres destacou que é necessário potencializar as energias renováveis, a eletrificação e a eficiência energética; construir redes elétricas modernas e sistemas de armazenamento em larga escala; interromper e reverter o desmatamento até 2030; reduzir as emissões de metano; e definir cronogramas de eliminação gradual do carvão em curto prazo.

ENTENDA

Na prática, a Cúpula do Clima busca dar peso político às negociações que se seguirão pelas próximas duas semanas de COP. A cada ano, um país recebe o encontro, que tem como principal missão buscar formas de implementar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Fonte: Agência Brasil.

Cintia Magno

Repórter

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Possui MBA em Jornalismo Digital e Pós-Graduação em Sustentabilidade e Responsabilidade Social. É repórter do jornal Diário do Pará desde 2011. Atuou na cobertura internacional da COP28, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), e da COP29, em Baku (Azerbaijão).

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Possui MBA em Jornalismo Digital e Pós-Graduação em Sustentabilidade e Responsabilidade Social. É repórter do jornal Diário do Pará desde 2011. Atuou na cobertura internacional da COP28, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), e da COP29, em Baku (Azerbaijão).