
Em Belém desde a primeira semana da Conferência, o deputado federal Túlio Gadêlha (Rede-PE) veio para engrossar o caldo das vozes incisivas na defesa de uma agenda climática que integre Congresso, cidades, oceanos e justiça social. Entre participações de painéis sobre marcos legais e transição energética, o parlamentar concedeu entrevista exclusiva ao Diário do Pará, e fez um diagnóstico direto: o Brasil ainda reage devagar demais à emergência climática.
Gadêlha afirmou que o Congresso permanece preso em interesses econômicos e em uma postura “reativa”, detalhou por que a proteção dos oceanos continua relegada a segundo plano, cobrou urgência na criação de um sistema nacional de prevenção a desastres e apontou a desigualdade como o “ponto cego” da transição energética. Na avaliação dele, Belém oferece ao país uma lição clara: política urbana e clima são inseparáveis — e a adaptação precisa começar de imediato. Confira a entrevista:
O que exatamente ainda falta no Congresso para destravar a agenda climática brasileira? Há travas políticas ou técnicas?
“O que falta, antes de tudo, é despertar. A maior parte dos meus colegas deputados e senadores precisa acordar para a emergência que vivemos. Os fenômenos climáticos extremos já não são exceção; eles estão acontecendo com uma frequência cada vez maior. Mesmo assim, boa parte do Congresso ainda insiste em atuar apagando incêndio, focando em ações de reconstrução e quase nenhuma de prevenção. O debate sobre a agenda climática avança, mas de forma muito tímida.
Temos necessidade urgente de ajustes tributários que olhem para o clima, desonerando produtos sustentáveis e de baixo carbono para que eles se tornem competitivos diante daqueles que poluem. Existem excelentes projetos, muitos de qualidade, mas seguem guardados nas gavetas. Precisamos votar e aprovar leis sólidas, como uma política nacional de adaptação, planos de cidades resilientes e mecanismos que alinhem o orçamento público às metas climáticas que o país já assumiu.
Falta também vontade política. E essa trava, muitas vezes, vem do interesse de setores econômicos muito fortes, que são defendidos por alguns parlamentares. Esses setores pressionam para manter tudo como está. Mas não podemos perder a esperança. Acredito muito no poder da educação — é ela que cria consciência política, social e ambiental. É disso que precisamos para virar essa chave.”
O Papel do Mar nas Políticas Ambientais
O Brasil ainda trata o mar de forma periférica nas políticas ambientais? Como mudar isso no curto prazo?
“Trata sim, e isso é uma contradição enorme para um país com uma das maiores zonas costeiras do mundo. Os oceanos sustentam modos de vida fundamentais, garantem segurança alimentar, biodiversidade e a resiliência climática das áreas costeiras. Estimativas mostram que mais de 40 milhões de brasileiros dependem direta ou indiretamente desse ambiente. E, além disso, o oceano funciona como um amortecedor térmico global — ele absorveu mais de 80% do excesso de calor produzido pelo homem ao longo dos últimos anos. Só que ele está sentindo essa mudança: há perda de biodiversidade, aumento da temperatura, acidificação.
Apesar dessa importância gigantesca, o mar ainda ocupa um lugar pequeno nas políticas ambientais brasileiras. A aprovação da Lei do Mar — que eu tive a honra de relatar na Câmara — foi um passo enorme, mas precisamos aprová-la no Senado para ter validade. O Brasil precisa urgentemente do planejamento espacial marinho, que vai permitir organizar a gestão desse território de forma ordenada, integrada e sustentável, sempre ouvindo as comunidades locais e tradicionais.
E, no curto prazo, o mais importante é colocar a proteção da biodiversidade marinha na mesma mesa de discussão da preservação das florestas, das políticas de clima, da bioeconomia e da adaptação das cidades. Não existe um Brasil da floresta separado do Brasil do mar. Tudo está conectado. E enquanto continuarmos fragmentando essas agendas, vamos perder capacidade de resposta.”
Na prática, qual é a primeira política pública que o Brasil deveria adotar para proteger vidas nos grandes centros urbanos diante da crise climática?
“A adaptação das cidades virou uma urgência absoluta porque os eventos extremos já fazem parte do cotidiano. Não é mais cenário futuro — é presente. Por isso, a primeira política pública que deveríamos adotar é a criação de um Sistema Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres Climáticos. Um sistema integrado de verdade, com mapeamento de risco atualizado, obras essenciais, alerta precoce e proteção social. E começando pelas áreas mais vulneráveis, onde as pessoas estão literalmente na linha de frente dos impactos.
Ações de Mitigação e Adaptação
Esse sistema precisa envolver municípios, estados, governo federal e a população. O ministro Jader Filho tem defendido isso: a população precisa entender os efeitos da crise climática para poder participar das soluções. E é importante lembrar que algumas ações de mitigação também são ações de adaptação, como a proteção de manguezais, restingas e pradarias marinhas. Esses ecossistemas são fundamentais para captura de carbono, mas também para prevenir enchentes, erosão e assoreamento — tanto em comunidades ribeirinhas quanto nas grandes capitais.
Essas medidas salvam vidas. E, ainda assim, vemos municípios gastando milhões com festas, shows e obras que não deveriam ser prioridade. Falta ciência nas decisões políticas, falta cultura de prevenção e, em alguns casos, falta sensibilidade de quem governa. A adaptação precisa deixar de ser vista como gasto e passar a ser tratada como política essencial para proteger vidas e reduzir desigualdades.”
Belém está vivendo a COP30 em meio a grandes desafios urbanos. Que lições essa COP deixa para o Brasil sobre integrar crise climática e política urbana?
“A experiência de Belém sediando a COP30 deixa uma lição direta para o Brasil: não existe crise climática separada da crise urbana. As duas coisas caminham juntas. Belém tem desafios enormes — mobilidade, saneamento, drenagem, habitação — e tudo isso evidencia que enfrentar o clima passa, necessariamente, por enfrentar as desigualdades dentro das cidades.
Belém melhorou muito para receber a COP, isso é inegável. A cidade fez um esforço gigantesco, mobilizou investimentos, acelerou obras, reorganizou espaços. Mas, ao mesmo tempo, a COP escancara que qualquer projeto de cidade no século XXI precisa ter a adaptação climática como eixo estruturante. Não dá mais para planejar obras, licitações e orçamentos sem considerar indicadores de risco climático. Isso deveria ser obrigatório, porque quem vive nas periferias, nas baixadas, nos bairros sem drenagem sente os impactos primeiro e com mais intensidade.
A COP30 coloca Belém como vitrine de um debate nacional: como planejamos cidades para resistir ao que já está acontecendo? Como garantimos que desenvolvimento urbano não intensifique vulnerabilidades? Então, a lição é clara: cidades brasileiras precisam incorporar clima em todas as suas decisões. Tudo — absolutamente tudo — deveria ser pensado com base em risco, adaptação e redução de desigualdades.”
O senhor participou de um painel na Assembleia Legislativa (Alepa) na semana passada sobre marcos legais e descarbonização acelerada, então qual é o “ponto cego” da transição energética brasileira — aquilo que ninguém quer discutir, mas que trava a agenda?
“Existe um ponto cego gigantesco na transição energética brasileira, e quase ninguém quer encarar: a desigualdade. Falamos muito sobre energia limpa, inovação, novos modelos de negócio, metas de carbono, descarbonização acelerada… mas discutimos muito pouco quem vai se beneficiar dessa transição. Se a energia renovável continuar cara para a população mais pobre e os investimentos permanecerem concentrados nos mesmos lugares de sempre, a transição simplesmente não acontece de verdade. Ela vira um discurso bonito, mas vazio.
E tem outro aspecto que os governantes do mundo inteiro evitam debater: a dependência do petróleo. Estudos recentes mostram que, para cumprir a meta do Acordo de Paris e manter o aquecimento em até 1,5°C até 2100, precisaríamos interromper hoje 83% de todas as concessões para extração de petróleo. É um número brutal. Só que, na contramão disso, existem mais de 2.300 blocos em estudo para exploração. Ou seja, estamos andando numa direção enquanto os dados científicos apontam claramente para outra.
No Brasil, o desafio é duplo: garantir justiça energética e enfrentar subsídios distorcidos, além dos interesses econômicos que querem prolongar ao máximo a dependência de combustíveis fósseis. Transição energética não é só sobre tecnologia; é sobre acesso, sobre equidade, sobre quem vai pagar a conta e quem vai ficar de fora. E enquanto isso não entrar no centro do debate, a transição seguirá travada.”
Emergência Climática: Uma Corrida Contra o Tempo
Depois de uma semana intensa em Belém, o que o Brasil ainda não entendeu sobre a emergência climática?
“A sensação que eu tenho, depois dessa semana intensa de debates na COP30, é que uma parte significativa da população — e também das lideranças políticas — ainda não assimilou que a emergência climática é, antes de tudo, uma corrida contra o tempo. Nós temos capacidade técnica, instituições fortes, cientistas renomados, compromissos internacionais assinados. Mas seguimos reagindo de forma muito lenta, como se houvesse margem para esperar mais alguns anos. Não existe essa margem.
A crise climática já afeta diretamente quem vive na floresta, no litoral, nas periferias urbanas, nas áreas de risco. Já vemos perdas de produção, perdas de biodiversidade, perdas de infraestrutura — e, pior, perdas de vidas. Mesmo assim, tratamos o tema como se fosse algo distante, algo ‘para depois’. A grande lição desta COP30 é que não existe mais espaço para demora. A conta já está chegando.
Ou aceleramos agora, adotando políticas estruturantes, enfrentando interesses que atrasam o país e colocando adaptação e mitigação no centro das decisões, ou perderemos territórios, perderemos oportunidades econômicas e continuaremos perdendo vidas. A emergência climática não é um alerta: é o presente. E o Brasil ainda não entendeu isso por completo.”