A história da carreta que virou febre nas ruas de Belém e encanta até turistas da COP30 Foto: Mauro Ângelo/ Diário do Pará.
A história da carreta que virou febre nas ruas de Belém e encanta até turistas da COP30 Foto: Mauro Ângelo/ Diário do Pará.

O trânsito noturno do centro de Belém tem ganhado um brilho diferente nos últimos tempos. Ao chegar perto, escutam-se músicas vindas de um veículo brilhoso, grande e colorido, que provocam uma vontade incessante de dançar.

O passinho mais tradicional – com duas jogadinhas de cada perna para trás e para frente e com uma viradinha de corpo ao longo da música, é fácil de reproduzir –, porém, é bem mais difícil de repetir a parte das acrobacias e mortais dos tripulantes da Carreta Bonde da Alegria, uma versão local das conhecidas “Carretas Furacão” que circulam por outras regiões do país. Crianças e adultos se juntam a esta aventura embarcando na carreta por R$ 15. A viagem dura 45 minutos e percorre os principais pontos turísticos do centro.

O veículo por dentro parece uma nave toda colorida e similar a um cenário de programa infantil de TV. Os passageiros filmam, dançam e acompanham as peripécias dos personagens ao longo do trajeto. Os tripulantes usam fantasias de personagens de desenhos animados, que se revezam ao longo da semana.

Diversas pessoas andando nas ruas param o seu ir e vir no intuito de dançar com o grupo. Ao longo do percurso uma momento em comum chama a atenção dos passageiros, motoristas vizinhos e os transeuntes: os saltos dos heróis – que provavelmente não fariam feio em competições de ginástica artística.

Para colocar os artistas em cena, há uma seleção rigorosa. “A nossa base de contratação é de pessoas preparadas e capacitadas, ou que fazem parkour, ginástica ou dança. Eles fazem muitos mortais dançando, então precisam ter ritmo”, explica Adriano Costa, gerente do Bonde da Alegria. “É uma seletiva muito pesada, muito difícil de encontrar, mas a gente consegue. Às vezes vem gente até de outros estados”, revela.

Segundo o gerente, tudo teve início há mais de duas décadas. “A história começou há 23 anos. A carreta veio do Rio Grande do Sul. Ela atravessou praticamente o país todo até chegar em Mosqueiro, foi onde começou”, conta. “Um ano e meio depois, a carreta chegou em Ananindeua e a gente começou o nosso trabalho. A gente está lá até hoje, já faz uns 20 anos. Ficamos muito conhecidos lá”.

A Trajetória e os Personagens

O Bonde da Alegria circula de terça a sexta em um trajeto entre o Porto Futuro e a Nova Tamandaré, a partir das 18h.Praça da Bíblia, na Cidade Nova. Ao todo, são quase 20 funcionários e vários personagens. “A gente tem Patati e Patatá, Aos sábados, segue para a Vila Maguari, e aos domingos para a Palhaço Rock Doido, Homem-Aranha, Fofão, Fofona, Palhaço Alegria, Mario, Luigi, cada dia é um diferente”, explica o gerente.

A animação da carreta ganhou ainda mais destaque durante o período da COP30, quando estrangeiros se encantaram com a performance. “Foi super diferente pra gente. Não esperávamos todo esse sucesso”, diz Adriano. “Quando eles olharam as cores, os personagens, brilharam os olhos e começaram a dançar. Foi muito bom pra nossa história e pra eles também. Deu muitos views nas redes sociais”.

Os Artistas e a Reação do Público

O dançarino César Santana de Oliveira, 27, que interpreta o Homem Aranha Rock Doido, lembra que entrar para a equipe foi a realização de um sonho de infância. “Essa ideia é um sonho de toda criança. Eu me dediquei quando conheci o Bonde da Alegria”, diz. Para trabalhar no veículo, entretanto, é preciso preparo. “É muito estudo, desenvolvimento e aprendizado. A gente faz um treinamento. Como eu já sabia dançar, fui pegando a prática mais rápido”. Para ele, o principal atrativo é a reação do público. “Eu gosto muito de animar o pessoal, não importa a idade. Até velhinho entra na brincadeira”.

Recém-chegada, Glaucia Silva, 23, a “Mulher Incrível” da carreta, conta que o trabalho reúne diversão e paixão pela dança. “É uma oportunidade muito bacana. É muito divertido”, diz. “Eu já conhecia a carreta porque moro na Cidade Nova. Vi eles dançando e me ofereci pra trabalhar. Como eu já fazia outros tipos de dança, não foi tão difícil pra mim”.

Glaucia afirma que conviver com a criançada é a melhor parte do trabalho. “Eu amo criança, sou louca para ter uma minha filha. Essas brincadeiras com as crianças são muito legais”, afirma.

Outro recém-integrado é Davi Alencar, 21, o Patatá, especialista em acrobacias. “A coreografia que eu mais gosto é o paredão, eu vou na parede e dou um mortal pra trás. Essa é a que o público mais gosta também”, explica. “Eu já sabia desde criança. Um amigo meu me indicou e falou ‘tenho um emprego perfeito pra ti’. Tô há uma semana aqui”, relata Davi.

A Experiência do Público

O passeio não encanta apenas quem trabalha, mas também quem participa. Antônio Carrala, 66, advogado, aproveitou o dia com o filho de 7 anos, Enzo Gabriel. “Ele me perturba há um tempão pra vir nesse bonde”, brinca. “Para a criança, é um momento especial. É tranquilo, bonito, os personagens divertem. E tem a questão dos pontos turísticos, que as pessoas acabam conhecendo no passeio”, opina o advogado. O pequeno Enzo confirma: “Está melhor do que eu imaginava”.

A estudante Letícia Rodrigues, 23, foi acompanhada pelas amigas filhas Yasmin e Larissa. Elas já são veteranas na carreta, que serviu de diversão após um longo dia de estudos na faculdade. “É a energia dos personagens, que se envolve e contagia. A rota é maior, então a gente conhece pontos turísticos. É uma diversão mesmo”, afirma. “É a nossa terceira vez aqui e a gente pretende voltar”, completa a jovem.