
Na Usina da Paz Jurunas–Condor, em Belém, o clima natalino já tomou conta das aulas de gastronomia conduzidas pela chef Narinha Tabosa. Coordenadora do módulo de receitas especiais de fim de ano, ela explica que a proposta do curso é oferecer formação gratuita, acessível e de forte impacto social.
“Os cursos são de extensão, duram duas semanas e são abertos à comunidade através da SEAC e da SECTET”, conta Narinha. As inscrições são presenciais, justamente para evitar desigualdades de acesso. “São turmas pela manhã e à noite. De manhã vem mais o pessoal que ainda não trabalha; à noite, quem passa o dia inteiro ralando e quer complementar a renda”.

Neste módulo, o destaque é o panetone e também o “bolotone”, uma variação de massa de bolo com sabor similar. “O panetone tradicional é feito com fermentação e frutas. Já o bolotone tem os mesmos sabores, mas com massa de bolo, fica mais fácil para quem está começando”, explica Narinha. As turmas aprendem duas receitas por dia, sempre pensando tanto na ceia quanto na possibilidade de empreender.
“A gente ensina salpicão, salada tropical, mousse de maracujá, bolotone. Tudo de um jeito que elas possam confraternizar sem gastar muito e, ao mesmo tempo, ganhar algum dinheiro”, acrescenta.
Além das técnicas gastronômicas, o curso também aborda noções de organização de mesa e apresentação. “Elas às vezes acham que não podem colocar uma toalha na mesa, que isso é frescura. A gente mostra que é possível comemorar com carinho, valorizar o alimento e criar memórias. O impacto social aqui é muito grande”, afirma a chef. Ela lembra, com carinho, que muitos alunos usam as aulas como terapia e contato com novas experiências e pessoas. “Quando eu digo que vem uma visita, elas esperam. É importante para a autoestima. Projetos assim fazem diferença”. Ao longo dos dias, a coordenadora faz questão de convidar chefs renomados e amigos que passam, voluntariamente, novas técnicas e experiências aos alunos.
Cursos Temáticos e a Geração de Renda
A cada duas semanas, o tema muda conforme o período do ano. “Depois do Natal, começa sobremesa natalina. Em janeiro, receitas de férias, drinks. Em junho, comidas juninas. Na época da COP, fizemos só pratos amazônicos. Tudo acompanha o momento para que elas aprendam e possam ganhar dinheiro também”, explica. Cada módulo recebe entre 15 e 20 alunos, com cadastro de reserva para reposição. Narinha lidera a cozinha ao lado do auxiliar Rui Oliveira.
Uma das palestrantes convidadas da noite de ontem foi a confeiteira Carla Nogueira. Ela reforçou o lado social da iniciativa. “Eu amo dar aula. Sempre gostei. E elas precisam, principalmente agora no final do ano, aprender algo que possa virar renda extra”, conta. Suas receitas são pensadas para descomplicar. “Eu não vou complicar a cabeça delas. Quero facilitar”, afirma. Ela ensina o bolotone e destaca que qualquer bolo pode se transformar mudando poucos ingredientes e também valoriza a inclusão. “A confeitaria é inclusiva. Todo mundo tem uma avó que fazia bolo. Um projeto social assim é muito especial, porque elas podem viver disso”, completa.
O chef Igor Carrera, outro palestrante convidado, também vê o curso como um reencontro com sua própria história. “A minha base foi em projetos sociais. Eu não posso negar a minha essência. Preciso estender o que aprendi para quem tem a mesma necessidade que eu tive”, afirma. Para ele, cozinhar também é terapia. “Já tive momentos difíceis, mas a cozinha me segurou”, relata. Igor ministra a receita de chocotone do dia e destaca o principal cuidado na hora de reproduzir em casa.
“Nosso clima quente é aliado e inimigo. Fermentação exige atenção. Dá para fazer sem equipamento, mas com técnica, usar água gelada, usar corretamente o tempo da geladeira, os descansos, com esses pontos, funciona”, orienta.
Transformação de Vidas Através da Gastronomia
Entre os alunos, a servidora pública Rosimery Cordovil, 60 anos, é exemplo de como o projeto transforma vidas. Ela descobriu o curso por acaso.
“Vim tirar um RG e vi que funcionava a sala de gastronomia. Me inscrevi e nunca mais parei”, conta. São três anos de módulos consecutivos. “Eu sabia cozinhar o básico, mas faltava técnica. Aqui eu aprendi precificação, organização e como vender. Hoje tenho meus clientes fixos e meu Instagram”.
Na época do Natal, Rosimery já tem encomendas garantidas e não é panetone que mais sai. “O que vende muito é meu bolo de mousse de ninho, que eu transformo em versão natalina”. No dia 24 de dezembro, no entanto, ela garante que trabalha só até meio-dia. “Depois preciso fazer a ceia da minha casa também”, brinca.
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Editado por Débora Costa