A sombrinha tem sido uma companheira inseparável no calor Foto: Mauro Ângelo
A sombrinha tem sido uma companheira inseparável no calor Foto: Mauro Ângelo

Sob calor recorde e céu quase sem nuvens, Belém enfrenta o auge do verão amazônico em plena semana da Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP). Com temperaturas que ultrapassam os 35°C e sensação térmica ainda mais alta, a capital paraense vive o período mais quente do ano, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A combinação de pouca chuva, forte umidade e ventos intensos marca o mês de novembro, historicamente o mais quente da cidade, e tem chamado atenção de moradores e turistas para os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia.

De acordo com Sidney Abreu, mestre em Meteorologia e meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET-PA), Belém está atravessando o período de verão amazônico, de junho até novembro, caracterizado por altas temperaturas e menor quantidade de chuvas. Por isso, as primeiras horas da manhã registram poucas nuvens com aumento gradativo ao longo do dia, e pancadas de chuvas isoladas no final da tarde e início da noite, rajadas de vento de até 60 quilômetros e trovões. 

Climatologicamente, novembro é considerado o mês mais quente de Belém, com temperaturas máximas médias em torno de 32º a 36º C. A maior temperatura registrada até o momento foi de 35,9º C, no último dia 3 de novembro, ficando atrás somente daquela registrada no dia 15 de outubro, 36 graus Celsius. 

O comportamento climatológico é o que explica o clima quente e úmido da cidade. Segundo o especialista, nesta época de verão amazônico a Zona de Convergência Intertropical, sistema causador de chuvas, migra ao hemisfério norte do globo terrestre, impactando na diminuição das chuvas. Em contrapartida, ao final de novembro, esse sistema começa a se aproximar da região amazônica, sendo considerado como um período de “transição” entre um clima mais seco para um clima mais chuvoso. 

“Com relação às chuvas, na nossa região de Belém, em novembro vai ficar abaixo da média climatológica. É o mês que menos chove em Belém, a média climatológica é de 127,4 milímetros em novembro. A previsão é que fique de 30 a 40 milímetros abaixo desse valor. Até o momento, nós temos 30,4 milímetros de chuva registrado em Belém. As temperaturas máximas vão ficar em torno de 1 a 1,5 grau acima da média climatológica. Em meados de dezembro, a gente já vai começar a ter uma virada no tempo, aquele clima característico de inverno, mais nublado”, revelou o meteorologista

Impactos das Mudanças Climáticas em Belém

De volta a Belém após quase três décadas vivendo em Goiás, a professora, psicóloga e compositora paraense Cleucydia Costa, 55 anos, decidiu enfrentar o calor intenso e as longas viagens de ônibus para participar da programação paralela aos debates da COP 30. A motivação, segundo ela, foi mais do que pessoal: veio da preocupação com os impactos emocionais das mudanças climáticas, um tema ainda pouco discutido na sua área.

“Não dá para trabalhar com comportamento humano e não se preocupar com o que está acontecendo com o planeta. Poucos colegas da psicologia falam sobre o estresse e até depressões que já surgem por causa do aquecimento global”, afirmou Cleucydia, que embarcou de Goiânia de última hora após perceber a importância do momento.

Mesmo com o desconforto térmico, a professora mantém o entusiasmo. Munida de leque e protetor solar, ela ainda tenta driblar o calor com camisetas de manga comprida e alerta que o as altas temperaturas podem ser fruto do aquecimento global acelerado. 

“Eu tive dificuldade de reconhecer que estava no Pará. Passei por Castanhal, São Miguel, e senti falta do verde. Antes era uma paisagem completamente diferente. Isso me tocou muito. É muito bom estar aqui. Eu sou poetisa dessa terra, autora de hinos de cidades do Pará, e não tinha como ficar de fora. Se somos desta terra, precisamos cuidar dela e entender o que está acontecendo com o nosso clima”, disse.

Experiências de Residentes e Visitantes

A mexicana Rocio Silveria Romero é índigena do povo Ñatho, também conhecido como Otomi, um dos grupos originários do Vale do Toluca, no México. Segundo ela, o clima de Belém é bem “pesado” e completamente diferente da terra natal, onde está acostumada com temperaturas mais frias. Para lidar com altas temperaturas e o sol constante, Rocio relata que utiliza um tipo de boné. Porém, em Belém, a umidade faz ser mais difícil lidar com o clima. 

“O clima daqui é muito pesado porque venho de uma parte fria do México, lá é muito frio, tem muitos bosques, muitas árvores e o clima daqui é muito diferente de lá. O sol daqui me faz mal, por isso uso chapéu. Eu acho que os povos indígenas têm tolerado a tudo. Trabalhamos também no campo e, às vezes, em horas do dia, o raio do sol não afeta tanto a gente aqui, é mais a umidade que mais nos afeta”, disse. 

Com temperatura anual média de aproximadamente 5,8º C, a Suíça é um país de clima temperado, caracterizado por quatro estações bem definidas e amplitude térmica, sendo o sétimo lugar mais frio da Europa. Natural de uma região montanhosa, a suíça Susanne Voser, 58 anos, enfrentava uma longa fila embaixo do sol forte e elevada temperatura de Belém para entrar no Parque da Cidade. Mesmo com clima, temperatura e sensação térmica diferentes da terra de origem, ela conta que Belém passa pelos mesmos problemas com o clima em relação a outros países do mundo. 

“É totalmente diferente do meu país. Lá não tem umidade, tem montanhas com neve. Esse clima mais quente tem impacto em todo o mundo permanentemente, não é só aqui em Belém. O clima não é só um problema no Terceiro Mundo, também é problema do chamado Primeiro. Eu até gosto do calor, mas aqui é uma sensação muito diferente, é muito difícil para as pessoas por causa da saúde. Nessa situação, o corpo precisa de muita energia para ficar bem. E quando a temperatura fica mais alta, essa fila, sem uma cobertura, é impossível para mim”, relatou a política. 

Previsões e Fenômenos Climáticos

Para as duas semanas de Conferência do Clima, a previsão é de altas temperaturas ao longo do dia, procedendo a pouca nebulosidade no início da manhã, e pancadas de chuva no final da tarde e início da noite. A temperatura mínima é de 23 graus em torno de 6h, enquanto a máxima pode atingir 36 graus às 15h. “A umidade relativa do ar vai variar de 50% a  97%. Nós vamos ter muito calor e muita umidade que dá uma sensação de desconforto maior, por isso que a gente sua muito em Belém”, pontuou o meteorologista Sidney Abreu

Ainda segundo o meteorologista, Belém está sendo afetada pela ocorrência do fenômeno La Niña de baixa intensidade. “O fenômeno La Niña é o resfriamento anômalo das águas do Pacífico Equatorial e com isso a gente tende a ter um aumento nos níveis pluviométricos da amazônia e do nordeste brasileiro, o que não está ocorrendo”, afirmou Abreu.